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Mercado cinematográfico aposta em streaming para recuperação no pós pandemia

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Cining, nova plataforma on demand, abre possibilidades para ampliação da janela de exibição e consequente geração de receitas

 

Não há discussão: o mercado cinematográfico foi um dos mais afetados pela pandemia da Covid-19. A essência da experiência da sala de cinema, que é reunir pessoas em um mesmo ambiente, foi (corretamente, é importante dizer) restringida. Desde março de 2020 não se pode mais encher as cadeiras e sentir aquela emoção compartilhada. 

Uma pesquisa realizada pela Comscore mostra que o faturamento com bilheteria dos cinemas brasileiros caiu 78% em 2020. Em 2019, a arrecadação no país havia sido de 2,8 bilhões de reais. Já em 2020 esse número caiu para 646 milhões de reais, o que corresponde a 40,2 milhões de pessoas nas salas. No ano retrasado, o número de espectadores havia sido de 177,2 milhões.

É nítido, portanto, que as condições da pandemia empurraram o público para uma mudança de comportamento. A Kantar IBOPE Media fez um estudo indicando que, após um ano de pandemia, 58% dos usuários de internet brasileiros assistiram mais streaming pagos. Em média, cada uma dessas pessoas passou 1h49 por dia em frente à tela, em plataformas como Netflix e Amazon Prime Video. 

Mercado internacional reabre. Por aqui, ainda há dificuldade

Fora do Brasil, inclusive onde a penetração das plataformas de video on demand (VOD) é muito maior, as pessoas já estão voltando às salas de cinema. Com o aumento da vacinação, a reabertura dos cinemas vai acontecendo de maneira constante.  Globalmente, estudos da Comscore mostram que mais de 83% das salas em todo o mundo já estão reabertas.

Com a vacina no braço, o público sente-se mais seguro para mais uma vez sentar-se frente à tela grande. O lançamento de blockbusters também é um incentivo. O filme ‘Velozes e Furiosos 9’, por exemplo, já arrecadou US$ 250 milhões internacionalmente. E outros filmes recentes, como “Um Lugar Silencioso Parte 2”, “Cruella” e “Invocação do Mal 3”, faturaram globalmente mais de  US$ 500 milhões – e continuam crescendo. “Também vamos voltar a patamares pré-pandemia, não tenho dúvida. Só que, neste momento, no nosso país, fica difícil estimar um prazo”, diz Paulo Celso Lui, diretor da Topázio Cinemas.

Pois é… E o Brasil? Bem, o problema é que nosso país ainda patina em termos de imunização. No meio do mês de junho, menos de 12% da população já recebeu duas doses. Com isso, a vontade de voltar ao cinema, comprovada por estudo do movimento “Todos pelo Cinema” que indica 75% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos colocam a tela grande como prioridade no entretenimento, vai demorando mais e mais para ser saciada.

Assim, o consumidor brasileiro, que já tem assistido mais streaming, tende a continuar assim, acostumando-se a frequentar menos as  salas de exibição. A Comparitech, consultoria do mercado de tecnologia, estima que a Netflix possui 17 milhões de usuários ativos no Brasil (a plataforma não revela seus números exatos). Já a Amazon tem 10 milhões de assinantes no país. A campeã é a Globoplay, cuja base de clientes acumula mais de 20 milhões de assinaturas.

Num cenário como esse, era evidente que o mercado cinematográfico precisava se mexer e algo seria criado. A primeira das alternativas é o Cining, uma proposta já existente na Argentina e no Chile, e que vem ao Brasil por meio de uma parceria da Paris Filmes com a BF Distribution, distribuidora que atua em diversos locais da América Latina.

O que é

O Cining funciona da seguinte forma: ao adquirir um ingresso, o espectador recebe um código de acesso único e intransferível, que garante até três reproduções em 72 horas. E haverá, basicamente, dois tipos de filmes sendo vendidos: lançamentos exclusivos, que não tiveram espaço nos exibidores, e produções que vão para o online depois de passarem pelas telonas – mas antes de chegarem às plataformas de streaming. Os primeiros vão custar R$ 24,90 e os segundos saem por R$ 9,90. O conteúdo pode ser assistido pelo aplicativo Cining disponível para Apple TV, Fire Stick, Roku e Chromecast, e no site da plataforma.

Do ponto de vista de negócios, a relação comercial entre as partes citadas por Fraccaroli continuam similares àquelas da exibição em salas de cinema. O que diferencia é o tempo de exibição pré determinado na sala online, que aumenta em relação aos espaços físicos. E mesmo sendo capitaneada pela Paris Filmes, outras distribuidoras devem fazer parte do modelo muito em breve. “Vimos uma oportunidade no mercado. Não são todos os nossos projetos que vão para os cinemas físicos, e agora temos a chance de levar esses filmes para os exibidores de uma outra forma antes de irem para o streaming. É bom para o distribuidor, para o produtor e para o exibidor que ganham mais uma janela de exibição, explica Márcio Fraccaroli, CEO da Paris Filmes e sócio do Cining.

Do lado dos donos de cinemas, a iniciativa foi bem recebida. “Eu vejo uma boa oportunidade para os exibidores de todos os tamanhos. Sempre priorizaremos a experiência dos filmes no espaço mágico que é a sala de cinema, mas trata-se de uma ótima ferramenta de exibição de filmes que veio para somar”, afirma Gilberto Leal – Presidente do Sindicato dos Exibidores do Estado do Rio de Janeiro, Diretor da Aexib – Associação dos pequenos e médios exibidores do Brasil, e CEO da Cinemaxx Cinemas. “Há tempos tenho comigo que a convergência entre as diferentes mídias e janelas seria apenas uma questão de tempo e indelével. Chegou o momento”, completa Lui, da Topázio.

Pelas escolhas de filmes pode-se dizer que o projeto, que entrou no ar no dia 17 de junho, ainda começa tímido, pois não há nenhum grande lançamento entre as primeiras produções disponibilizadas. A única que tem um nome significativo no elenco é “Além das Montanhas”, romance com Jamie Dornan e Emily Blunt inspirado na peça da Broadway “Outside Mullingar. As outras são bem mais modestas, com cara de “Sessão da Tarde” numa terça-feira qualquer.

Porém, é interessante ter espaço para esses filmes, que acabariam passando despercebidos nas plataformas de streaming. Sempre há uma pérola escondida entre eles. E, nesse momento ainda mais importante, abre-se uma possibilidade de aumento de receita de produtores, distribuidores e exibidores – o que pode significar uma sobrevida até que haja uma reabertura consistente e segura. Além, é claro, de ampliar a visibilidade de exibidores menores, como é o caso da Topázio Cinemas, por exemplo. Paulo Celso Lui diz que sempre buscaram novas e diferentes alternativas para valorizar a marca e trazer diferencial ao público. “Ao sermos convidados para fazer parte do Cining, aderimos de pronto!”, afirma entusiasmado.

Há, todavia, o entendimento de que uma coisa não substitui a outra, mas sim complementa. “É claro que a experiência imersiva do cinema só pode acontecer numa sala de cinema, com toda magia e emoção da tela gigante e da sala escura, isso é inegável. São formas de entretenimento muito diferentes, e o novo formato de exibição online permitirá que o público possa rever alguns dos seus filmes favoritos antes de chegarem ao streaming”, afirma Patrícia Cotta, gerente nacional de marketing do Kinoplex.

O Cining foi adotado pela Cinemark, Kinoplex, Cineflix, Cineart, Centerplex, Cinemais, Cinemaxx Cinemas, Circuito Cinemas, Grupo Cine, Topázio Cinemas, Moviemax Cinemas, Multicine Cinemas, CineA, Cinemagic e há expectativa de outros exibidores aderirem nos próximos meses. A venda de ingressos ocorre nos sites dos cinemas e também pela Ingresso.com e pela Velox Tickets.

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