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Liga da Justiça de Zack Snyder

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Fruto de uma campanha ferrenha, a versão originalmente idealizada pelo diretor é a prova de que quem realmente entende do negócio é o verdadeiro fã

 

Em 2017 chegava aos cinemas do mundo o tão aguardado ‘Liga de Justiça’ – o filme que realizaria um antigo sonho dos fãs dos quadrinhos e animações da DC Comics: ver o principal grupo de heróis da editora reunidos em live-action, numa grande produção cinematográfica. Se ‘Batman vs Superman’ já tinha dado aquele gostinho (meio amargo pra alguns, é verdade) reunindo a ‘Trindade da DC’ Batman, Superman e Mulher-Maravilha, “Liga da Justiça” os uniria ao Flash, ao Aquaman e ao Cyborg na luta contra perigosos vilões alienígenas. 

O resultado todos nós conhecemos: aquele balde de água fria nas mais modestas expectativas. Com o afastamento de Zack Snyder da produção – por “divergências criativas” e também pela morte de sua filha Autumn – , resolveram substituí-lo pelo Joss Whedon (um diretor da “concorrência”). Whedon achou que seria uma ótima ideia cortar sequências importantes – fazendo com que os personagens “secundários” nessa nova abordagem tivessem a relevância de um freezer no Polo Norte – , acrescentar fan services de gosto duvidoso, suavizar o visual do vilão, tacar mais cor, mais humor, mais amor… e embalar tudo “na correria” pra entregar o filme no prazo. Mais esburacado do que queijo suíço, com efeitos porcamente finalizados, um monte de piadinhas desnecessárias e ações atrapalhadas dos heróis (tipo, praticamente entregar a arma de bandeja pro inimigo), o filme foi um fracasso de crítica e público – o que fez com que os executivos da Warner decidissem cancelar as vindouras sequências e focar nos filmes solo de Aquaman, Mulher- Maravilha, Flash e Shazam. Henry Cavill, o Superman, foi uma das figuras mais injustiçadas nessa história: sem ter culpa alguma pelo fracasso do longa (ou por aquele bigode mal deletado), acabou sendo jogado numa espécie de “limbo” do DCEU – onde o povo o quer de volta no papel mas o estúdio não toma uma decisão definitiva sobre o seu futuro (ou não) como o herói kriptoniano. 

De 2017, pulamos para 2021: pandemia, lockdown, crise mundial, economia em baixa, cinemas totalmente (ou parcialmente) fechados há mais de um ano… e a ‘Liga da Justiça’ está de volta – não nos cinemas, e sim nas telas de TV, tablets, smartphones e computadores. A tão sonhada versão de Zack Snyder se tornou realidade e um verdadeiro sucesso de crítica e de público, fruto de uma ferrenha campanha, quase sem precedentes, de fãs ao redor do mundo. Através das incessantes postagens do próprio diretor – com alguns esboços e designs de personagens que não deram as caras no filme cometido por Whedon – o público já teve alguns vislumbres de como teria sido a história comandada por Snyder. Veio o crescente apelo virtual dos fãs: o #ReleaseTheSnyderCut bombou nas redes e saiu do virtual pro físico, através de banners em cidades como Nova York, por exemplo. Deu tudo certo e eis que finalmente temos um FILMAÇO!  É um marco na indústria do entretenimento cinematográfico, onde prevaleceu a vontade dos verdadeiros fãs.

É algo como o que aconteceu, por exemplo, com o tão sonhado projeto “Deadpool” de Ryan Reynolds e a mudança (pra melhor) do personagem Sonic no seu primeiro live action – só que em maior escala. Pro fã, é um alívio recuperar algo que lhes foi negado por uma série de fatores e decisões pra lá de equivocadas daqueles que “mandam na verba”. Além disso, é o triunfo de um diretor autoral, que batalhou arduamente para tornar reconhecida a sua visão daquela obra.

A história segue basicamente a linha do tempo do que foi mostrado em 2017: após o sacrifício do Superman, o mundo vive em luto pela perda de seu maior herói. Enquanto isso, um terrível invasor alienígena tenta colocar as mãos em três poderosos artefatos que podem causar a extinção da raça humana. Ciente da ameaça, Bruce Wayne (Ben Affleck) decide vestir novamente o manto do Batman e aliado à poderosa Mulher-Maravilha (Gal Gadot), parte para recrutar alguns heróis que vivem no anonimato, a fim de formar uma aliança contra o perigo iminente. A dupla se alia ao furioso Aquaman (Jason Momoa), ao velocista Flash (Ezra Miller) e o jovem Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher) – que tem sua própria origem ligada a um dos artefatos cobiçados pelo mortífero Lobo da Estepe e por seu mestre, o temido Darkseid. Diante do poder do monstrengo e do numeroso “enxame” de parademônios voadores que o acompanham, o grupo só terá uma chance maior contra os vilões se conseguir trazer de volta à vida o mais forte de todos eles: o Superman. Aqui, não importa se é a mesma história a ser contada, e sim a forma como ela é contada.

Com aproximadamente 4h de duração, o longa traz muito mais profundidade à história e aos seus personagens: Flash e Cyborg, por exemplo, tinham pouquíssima relevância na versão anterior, aqui ganham mais tempo de tela e de desenvolvimento individuais. O Flash/Barry Allen de Ezra Miller não é mais apenas um moleque nerd e bocó que faz piadinhas o tempo todo, meio medroso e que comete trapalhadas dignas de programa humorístico de segunda categoria. Aqui, vemos um herói que apesar de eventualmente ficar apreensivo diante do perigo, é corajoso, tem um grande coração, é inteligente, bem humorado e tem um papel fundamental nas batalhas fazendo bom uso de seus incríveis poderes. Cyborg, outro com papel fundamental, tem a sua história de origem – ignorada no filme anterior – muito bem desenvolvida aqui. Aí, entendemos perfeitamente o motivo da revolta e dos constantes ataques de Ray Fisher a Joss Whedon – que praticamente fez desaparecer a importância e a força do personagem na trama da versão de 2017. Tudo foi melhorado aqui: os efeitos visuais, o design do Lobo da Estepe – numa armadura “espinhosa” que parece ter vida própria, defendendo-o de alguns ataques – está com uma aparência muito mais ameaçadora do que aquele vilão que parecia ter saído do mais mequetrefe joguinho de Playstation. As cenas da batalha da Mulher-Maravilha estão mais violentas (e sensacionais, por sinal) e o Batman está um tanto mais sisudo (como deve ser), mais tático, ainda mais carismático, até mais otimista e o melhor: sem momentos constrangedores – como ele gaguejando diante do Superman ressurgido. 

O filme tem defeitos? Alguns: tem cenas que se estendem demais – em longos planos, naquele slow motion maroto do Seu Zack e ao som de alguma canção pop chatinha e sorumbática. As cenas do luto de Lois Lane (Amy Adams) poderiam ter sido menos longas e melancólicas. A escolha do formato 4:3 (aquele da televisão de antigamente) é algo como um retrocesso onde o widescreen valoriza muito mais esse tipo de obra cinematográfica – e cairia muito melhor em sequências épicas como as que vemos. O motivo é o filme ter sido feito para os cinemas IMAX. Mas já que não foi para as telas gigantes, poderia ter sido alterado.  Superman continua tendo pouco tempo de tela e quando finalmente surge no seu aguardado e icônico uniforme preto, ao contrário da HQ que o originou, é um mero ‘fan service’ e parece ter sido escolhido apenas por motivo estético. Mesmo assim, esse detalhe merece até uma “passadinha de pano” dos menos ranzinzas porque o visual do herói ficou um espetáculo!

Por que assistir? 

“Liga da Justiça de Zack Snyder” já merece uma chance por ser um marco na indústria cinematográfica – que tornou real um projeto reivindicado por fãs, corrigindo uma grande injustiça cometida com alguém que passou anos construindo um universo que, gostem ou não, era coerente com o seu estilo desde o início. A fotografia soturna e com poucas cores, a câmera lenta nas sequências de ação… são marcas do trabalho de Snyder e esses elementos estão pra sua obra como as “esquisitices” marcam os filmes de David Lynch, por exemplo. 

As cenas de batalha são de encher os olhos – com amazonas, atlantes, deuses, monstros, heróis e bárbaros – e as de ação e pancadaria envolvendo os heróis foram aprimoradas e ficaram espetaculares (e até brutais). Vale citar a sequência inicial da Mulher-Maravilha, impedindo um atentado terrorista em um museu, que nos faz perguntar: por que diabos mudaram aquilo na versão do Whedon? Arrisco dizer que talvez sejam as melhores cenas de luta da amazona, mostrando-a como a implacável e poderosa guerreira que é –  impiedosa com os vilões e ao mesmo tempo zelosa e super-protetora com os inocentes. Quase dá pra esquecer o pastiche “Mulher-Maravilha 1984” – mas isso é assunto pra outra hora. O Flash também ficou incrível e vemos mais de suas motivações no combate ao crime – entre elas, a busca por justiça para o seu pai, preso injustamente acusado de assassinar a sua esposa, mãe de Barry. Alguns personagens descartados na versão anterior aparecem em pontas muitos bacanas, como o Caçador de Marte, Ryan Choi (o futuro Eléktron), um assustador Darkseid e o Coringa vivido por Jared Leto. Aqui, a rápida participação do ‘palhaço do crime’ é a redenção do bom ator no papel depois daquela total descaracterização do personagem no irregular “Esquadrão Suicida”.

Por essas e outras, além de não abusar da paciência do espectador ou subestimar a inteligência alheia  – da audiência e dos próprios heróis – , esse filme é altamente recomendável, uma experiência única, sensorial e sentimental também. E pra quem tá reclamando de sua duração, a boa notícia é que dá pra assistir tranquilamente como se fosse uma minissérie: o filme é dividido em capítulos, com um epílogo muito interessante – que deixa ganchos para uma (infelizmente improvável) continuação. 

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