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Rua do Medo: 1994 – Parte 1

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Rua do Medo 1994

Terror da Netflix bebe na fonte dos clássicos, mas falha em produzir ameaças

 

Perseguir e matar adolescentes não é o suficiente para se tornar um personagem icônico do cinema, mas fato é que, nos melhores filmes slasher (aqueles dos assassinos em série), motivações complexas por trás dos homicidas são o que menos importa. Em “Pânico”, por exemplo, bastam jovens viciados em filmes de terror para compor o mascarado; já “Rua do Medo: 1994 – Parte 1” apresenta um grupo elaborado de lendas e origens para aterrorizar os protagonistas. Ainda assim, não entrega ameaças convincentes.

Primeiro volume de uma trilogia produzida pela Netflix (que será completa nas duas próximas sextas-feiras), o longa é um orgulhoso colonizado: filhote de obras-primas como “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo”, ele assume suas referências, a começar pelo cultuado “Dia dos Namorados Macabro”. Como lá, temos aqui uma cidade historicamente marcada por seus assassinatos. A sensação de que não há solução para isso remete ao Mal de Derry, conceito criado por Stephen King em “It” para descrever os cenários em que a indiferença impera: todos os habitantes de Shadyside sentem-se fadados a viver uma tragédia – e ninguém faz nada quanto a isso.

Rua do Medo Poster

O primeiro de três. Esperamos dois bem melhores. Potencial existe. (Divulgação: Netflix)

Ao usar o sentimento local como fruto de uma acirrada rivalidade com a vizinha Sunnyside, onde tudo prospera, Rua do Medo: 1994 – Parte 1 nos mergulha na década de 1990. As provocações, o clima colegial e a sensação de distanciamento muito maior numa era pré-internet móvel (além da ambientação visual) produzem a atmosfera adequada para a violência. Não à toa, uma catarse desse antagonismo desperta a maldição que passa a perseguir os protagonistas.

Ou melhor: uma protagonista. Desde que Josh (Benjamin Flores Jr.), personagem que mais tem conhecimento sobre o tema – figura comum em filmes do tipo – descobre haver uma motivação por trás do comportamento dos assassinos, que estão atrás apenas de Sam (Olivia Scott Welch), a ameaça se esvazia de forma irreversível. Embora faça sentido temer por apenas uma personagem (vide Laurie em “Halloween”), faz falta que as outras estejam em risco. Se não há razão para que elas temam por suas vidas, por que nós, espectadores, deveríamos temer? Mais: se as criaturas caçam somente Sam, por que deixam um rastro de vítimas por onde passam?

Isso porque o roteiro, assinado por Phil Graziadei e pela diretora Leigh Janiak, abraça uma série de conveniências que desobedecem a sua própria lógica. Para produzir algumas boas cenas de morte, os assassinos “se esquecem” das regras que os movem. Mas, de fato, há boas sequências. Embora exponha problemas no roteiro, Janiak é hábil para encontrar o tom da narrativa, que caminha entre o escrachado e o excitante – também nas relações entre as personagens -, e na condução dos episódios de perseguição e violência, quando a câmera se inquieta e nos deixa tensos, mas jamais esconde o que acontece em cena.

Por que assistir?

Tudo isso revela em “Rua do Medo: 1994 – Parte 1” um grande potencial para um filme slasher. É quase irresistível ficar curioso pelo desfecho da franquia com as pequenas amostras que nos são mostradas das obras dos outros psicopatas de Shadyside; resta torcer para que elas fiquem em primeiro plano, sem obedecer a outras lógicas. Os bons exemplos ensinam e, nas próximas vezes, podem servir para mais do que fornecer referências. Há esperança.

 

Rua do Medo: 1994 – Parte 1 (Fear Street: 1994)

Direção: Leigh Janiak
Roteiro: Leigh Janiak, Phil Graziadei
Elenco: Maya Hawke, Charlene Amoia, David W. Thompson
Duração: 1h45

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